quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011


Dilemas do nascimento-marcas e vitórias

Quem já não ouviu alguma história de nascimento ?
Tempos passam, e o nascer faz histórias em nossas vidas, ora assistida por outros, ora somente ouvida e ora vivida por cada um de nós.

Na nossa cabeça soam palavras e mais palavras, misturadas de mito e realidade. Palavras que nos provocam as mais variáveis emoções, em sintonia com aquilo que somos, e daquilo que cada experiência empírica fez de nós.

Toda experiência guarda sentimentos que nos libertam ou aprisionam, que nos dão coragem ou nos fazem desistir, alegrias ou tristeza. Porém o essencial sempre fica, a reflexão. Essa que esta junta de uma infinidade de sentires, mas considero dois como norte, a ausência da felicidade em nossas vidas ou sua fartura.

Porém percebo que a semente da alegria cresce em solos pobres de egoísmo e fartos de um olhar que sai de si mesma e passa a olhar a vida também através do olhar do outro.

Cada pessoa, uma forma de vida apreendida e vivida. Mas existe algo que nos une. Todos nós sobre alguma coisa buscamos transformar um ideal, que habita o mundo dos sonhos, em algo que seja real e vivido pelas pessoas e que faça feliz a nós e o outro.

Ao gestar espera-se que esse ideal seja querer primeiro o melhor para aquele, que deveria ser o central da vida. O filho.

Nesse momento, tantos pensamentos a ocupam , mas um de grande relevância as vezes fica adormecido em muitas mães. Como se dará o nascimento? Afinal porque pensar ? se todas já aprendemos que o Médico, alguém capacitado e formado exatamente para isso é que o fará. O único pensamento sobre o nascimento seja escolher uma data que agrade o Doutor e a genitora.

A pergunta do nosso íntimo, qual o motivo do comportamento passivo e a aceitação da normalidade dos atos, perante algo tão majestoso, que é a vida..

Apesar de cada um ter a singularidade de suas marcas, sentimentos, reflexões e ações não podemos negar o quão tudo se insere em um contexto mais amplo, com prioridades específicas.

Quantos de nós não sentimos um vazio no peito, que parece permanente, quando não encontramos solos para as nossas sementes de Ideais, principalmente quando queremos ser autor de alguma coisa que nos realize e sucumbimos ao irresistível mundo do Tudo Pronto.

Parece que todas as nossas vontades podem ser compradas em um supermercado. Idealismo na mente que se concretiza com o cartão de crédito. Diretrizes econômicas que ditam nossas vidas

Mas ninguém pode negar a delícia que é poder inventar alguma coisa que lhe é importante. Todo mundo sabe, pode e tem saudades de ser autor em alguma coisa.
Mas a vida nos acostumou assim, até muitos de nossos pensamentos já estão prontos, saíram de uma caixa quadrada chamada televisão.
Estamos acostumando, em quase tudo não sermos mais autores. Até para desligar a TV temos um controle na mão que nos permite a isso. È o mundo tecnológico e a nossa desapropriação de autor.

Pilares econômicos e tecnológicos do nosso tempo também nos deixam marcas. A marca da ditadura do padrão e da passividade, contextos que nos atingem, em maior ou menor grau, mas não dá para negar que nos causa algum incomodo, mesmo que seja lá bem fundo em nosso íntimo.

O nascimento materializa essa forma de ser da sociedade. Desde o início da vida queremos imprimir no ser a sociedade nua e crua como ela é. Isso é uma opção pessoal ou social. Sendo de ordem pessoal todo meu respeito, como diz a música, cada um sabe de suas alegria, e dores.

Escolhas pessoais merecem toda relevância mas a discussão permeia outros caminhos mais complexos.

A escolha no âmbito social, transforma o nascimento, um advento da Natureza em cirúrgico. A tecnologia é ótima na real necessidade. Mas como prática corriqueira, sem qualquer critério nega a autonomia natural e poder de toda mulher de parir. Simplesmente, fácil assim, retira-se a sua força criadora, o seu eu autor.

Vida é algo que combina com beleza. Parir é o verbo, a ação. Uma ponte do mundo da barriga para o aconchego de um abraço. E em nada combina com sofrimento.
Embora, grande número de pessoas vê sofrimento no parir, elas não percebem a forma com que, a peça fundamental é entendida e no que isso contribuir para o sofrimento. Assim, a mulher é vista apenas como uma coisa como uma peça e o seu Bêbê uma pecinha que precisa urgente sem desconectado da sua mãe.
Corta-se o cordão imediatamente, talvez corre-se para cortar qualquer coisa que possa ser meio de vínculo, amor e sentimentos. Sentir é perigoso, é por em risco ao funcionamento e entendimento do sistema

A maior de todas vitórias é saber quer queira ou não, parir é intrínseco a natureza da mulher, da sua fisiologia. Pode-se tentar, mas nada muda a sua natureza de parir.
O que muda é a falta dela e nós acreditarmos em seu poder, sua força e capacidade naturais, mas esquecidas.
Esquecidas a força ou não, mas deixadas de lado e substituídas pelo chamado natural de ser, o tudo pronto.

Triste realidade, assistirmos mulheres destituídas de si mesma, que o pensar social atual as fazem acreditarem que o ato de parir não o é mais próprio e sim do médico.
O resultado mais assustador é sermos tolhidas de nossas escolhas. Pois quem quer cesárea é prontamente atendida, aquelas que querem parir naturalmente sofrem todo tipo de coerção física e moral, são completamente negadas.

As escolhas frente ao nascimento é realmente uma escolha própria? Ou pensamos ser própria?

Negar a escolhas é emudecer vozes que gritam da maior dor. A dor de ser invisível e dilacerada em seu instinto mais primitivo que trouxe a todos nós aqui hoje.






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Um comentário:

  1. Katia, adorei o texto! maravilhoso! Diz tudo direto do seu coração. Infelizmente, muitas mulheres que sem necessidade passam passivas pelo nascimento de seus filhos não sabe quão transformador, curador, fortalecedor e prazeroso é receber seus filhos nos seus próprios braços. Por todas as mulheres, seus direitos e suas escolhas (conscientes) a nossa luta sempre. Um beijão no coração.

    http://jardimdeom.blogspot.com

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